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Aquecimento global vai superar limite, diz ONU

Diagnóstico do PNUMA reflete décadas de ação insuficiente no corte de emissões de gases de efeito estufa

Aquecimento global vai superar limite, diz ONU
Arte: Pixabay

O relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), intitulado Limiting Overshoot, marca uma inflexão histórica no debate sobre o colapso climático. Pela primeira vez de forma institucional e pragmática, a diplomacia ambiental reconhece que a humanidade falhou em conter o aquecimento global dentro do limite de segurança de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris. A meta diplomática deixa de ser a contenção preventiva da barreira térmica para se concentrar na gestão de danos e no controle da trajetória de transpassamento temporário do limite - o chamado overshoot.

O diagnóstico do PNUMA reflete décadas de ação insuficiente no corte de emissões de gases de efeito estufa. Mesmo considerando a aplicação integral de todos os compromissos voluntários assumidos pelas nações (NDCs), os modelos mais otimistas preveem que a temperatura média do planeta atingirá um pico ao redor de 1,8 °C. Em cenários pautados apenas pelas políticas públicas atualmente em vigor, a trajetória do planeta aponta para um aquecimento ainda mais drástico até o final deste século, evidenciando o abismo entre o discurso e a prática dos governos.

Diante do inevitável transpassamento do limite, a ONU propõe a adoção formal do modelo "overshoot, peak and decline" (excesso, pico e declínio). Essa estratégia assume que a temperatura global continuará subindo temporariamente, mas busca garantir que o pico de aquecimento seja o mais baixo possível e que a fase de queda até a marca de 1,5 °C ocorra de forma rápida. A duração desse período crítico definirá a escala dos desastres que a humanidade precisará enfrentar, já que cada fração de grau adicional amplia os riscos sistêmicos de forma exponencial.

O grande alerta das ciências da Terra para o período de overshoot reside na proximidade dos pontos de inflexão irreversíveis (tipping points). A permanência prolongedada acima da marca de 1,5 °C eleva substancialmente as chances de colapsos ecológicos em cadeia, tais como o derretimento irrecuperável das calotas polares da Groenlândia e da Antártida Ocidental, a savanização da Floresta Amazônica e a desorganização de correntes oceânicas vitais como a AMOC. Tais eventos, uma vez disparados, continuarão a alimentar a crise climática independentemente da redução de emissões industriais no futuro.

Para operacionalizar o retorno a patamares seguros, a ONU estabelece três pilares simultâneos e urgentes. O primeiro exige a descarbonização imediata e profunda da matriz energética mundial, do transporte, da indústria e da agropecuária ainda nesta década. O segundo pilar é a mitigação focada em poluentes climáticos de vida curta, em especial o metano ($CH_4$), cuja redução imediata atua como um freio térmico de emergência para achatar a curva da temperatura global durante o pico.

O terceiro pilar apoia-se no alcance de emissões líquidas negativas por meio de tecnologias e processos de Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) em larga escala. Isso inclui tanto soluções baseadas na natureza (como o reflorestamento e a recuperação de solos) quanto tecnologias avançadas de captura direta de ar (DACCS) e bioenergia com armazenamento de carbono (BECCS). O relatório faz uma advertência explícita: essas ferramentas servem estritamente para retirar o carbono acumulado e abater emissões residuais inevitáveis, jamais para legitimar o adiamento do encerramento do uso de combustíveis fósseis.

Ao mesmo tempo, o relatório apresenta a aposta cega e desregulada na geoengenharia, com destaque para a Modificação da Radiação Solar (SRM). Métodos que tentam resfriar a Terra artificialmente via injeção de aerossóis na atmosfera contém incertezas ecológicas profundas, risco de alterações graves nos regimes globais de chuvas e graves implicações geopolíticas, sem tratar a causa primária do aquecimento nem resolver a acidificação dos oceanos. A tecnologia, portanto, não deve ser encarada como uma pílula mágica para evitar as mudanças estruturais necessárias da sociedade.

Em última análise, a transição do combate para o gerenciamento do overshoot não deve ser interpretada como resignação diante da crise. Pelo contrário, trata-se de um imperativo de sobrevivência e justiça climática. O êxito dessa nova fase dependerá do fortalecimento multilateral do financiamento de adaptação e reparação de Perdas e Danos para os países do Sul Global - os que menos contribuíram para o acúmulo histórico de gases na atmosfera, mas que já enfrentam as piores consequências dessa ultrapassagem. 


(Redação Serra Verde / Fontes: Agência Brasil; O Tempo; Terra; Olhar Digital; O Globo) 

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