Exames de rastreamento do câncer do colo do útero no SUS é pior entre mulher não brancas e mulheres indígenas
Com 43,71%, mulheres brancas apresentaram maior cobertura no rastreamento
(Redação Serra Verde / fonte: Agência Bori / Text: Agência Bori)
As Mulheres não brancas - pardas, pretas e amarelas - e as mulheres indígenas enfrentam maiores barreiras para realizar o exame de rastreamento do câncer do colo do útero no Sistema Único de Saúde (SUS), revelando desigualdades raciais e regionais no acesso ao cuidado no Brasil. É o que mostra um estudo publicado em dezembro de 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia, realizado por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em parceria com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). As conclusões foram obtidas a partir da análise de atendimentos do SUS entre 2021 e 2023.
Para estimar a cobertura do rastreamento do câncer do colo do útero por cor de pele e região, os pesquisadores utilizaram dados públicos do Sistema de Informação do Câncer (Siscan), que reúne os exames realizados no SUS. Essas informações foram combinadas com dados populacionais do Censo de 2022 e da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, e os cálculos consideraram apenas mulheres de 25 a 64 anos que dependem exclusivamente do SUS. As análises foram feitas para o Brasil, regiões e capitais, e as mulheres foram agrupadas em três categorias raciais: brancas, não brancas (pardas, pretas e amarelas) e indígenas, para maior consistência dos dados.
O estudo evidenciou disparidades raciais e regionais no rastreamento do câncer do colo do útero pelo SUS. Em nível nacional, a maior cobertura foi observada entre mulheres brancas (43,71%). A proporção de mulheres rastreadas caiu para 36,2% entre não brancas e 37,58% entre mulheres indígenas. Édnei César de Arruda Santos Junior, autor do estudo, explica que a cor da pele sintetiza desigualdades históricas que atravessam renda, escolaridade, moradia, qualidade do cuidado e até o vínculo com os serviços de saúde, influenciando tanto o risco de adoecimento quanto o acesso à prevenção e ao tratamento. “Quando a variável raça/cor não é considerada, as políticas públicas perdem a capacidade de identificar quem não está sendo alcançado pelo rastreamento e de formular estratégias específicas para populações que vivem realidades distintas”, afirma.
As análises regionais também revelaram desigualdades importantes. As Regiões Sul e Sudeste apresentaram as maiores coberturas, com quase metade das mulheres rastreadas para a doença, enquanto o Norte e o Centro-Oeste registraram os menores valores: nessas regiões, cerca de 70% das mulheres não passaram por exames de detecção para a doença no período analisado. As coberturas em mulheres brancas foram mais elevadas no Sul (59,53%) e Sudeste (47,84%), enquanto, em mulheres não brancas, destacaram-se o Nordeste (46,87%) e Sudeste (44,43%). Entre as indígenas, as maiores coberturas ocorreram no Sul (54,13%), Centro-Oeste (49,87%) e Norte (42,83%).
Junior argumenta que esses achados podem ser essenciais para a formulação de estratégias para ampliar o rastreamento e reduzir as desigualdades. “Nossos resultados podem ser usados para planejar a oferta direcionada especificamente às mulheres que nunca realizaram o rastreamento ou que estão com exames em atraso, focando nos grupos de maior vulnerabilidade racial e geográfica”, explica.
O estudo também indica que, em nível nacional, a cobertura do rastreamento do câncer do colo do útero no SUS está muito aquém do recomendado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece como meta que, até 2030, 70% das mulheres tenham realizado ao menos um teste de rastreamento até os 35 anos. No entanto, no grupo analisado, a cobertura média foi de apenas 39,03%.
Para o autor, a recente incorporação do teste de DNA do HPV no SUS pode ser decisiva para ampliar o alcance do rastreamento. Segundo ele, o exame tem maior sensibilidade que seu antecessor, o papanicolau, e permite intervalos mais longos entre os testes. “Há um grande potencial de redução das desigualdades se o modelo adotado for, de fato, organizado, com a convocação ativa das mulheres para a realização do exame”, destaca.
Júnior enfatiza que, para isso, é necessário olhar para o panorama atual e considerar fatores sociais e raciais durante o desenvolvimento dos planos. “Estamos falando de uma doença evitável, cujo desfecho depende do acesso oportuno ao rastreamento e ao seguimento adequado nas etapas subsequentes após um exame alterado”, diz. “Sem rastreamento organizado, financiamento adequado e foco na equidade, a meta não será alcançada, mesmo com a melhor tecnologia disponível”, conclui.








