Aquecimento global vai superar limite, diz ONU

(Redação Serra Verde / Fontes: Agência Brasil; O Tempo; Terra; Olhar Digital; O Globo) 


O relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), intitulado Limiting Overshoot, marca uma inflexão histórica no debate sobre o colapso climático. Pela primeira vez de forma institucional e pragmática, a diplomacia ambiental reconhece que a humanidade falhou em conter o aquecimento global dentro do limite de segurança de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris. A meta diplomática deixa de ser a contenção preventiva da barreira térmica para se concentrar na gestão de danos e no controle da trajetória de transpassamento temporário do limite - o chamado overshoot. 

O diagnóstico do PNUMA reflete décadas de ação insuficiente no corte de emissões de gases de efeito estufa. Mesmo considerando a aplicação integral de todos os compromissos voluntários assumidos pelas nações (NDCs), os modelos mais otimistas preveem que a temperatura média do planeta atingirá um pico ao redor de 1,8 °C. Em cenários pautados apenas pelas políticas públicas atualmente em vigor, a trajetória do planeta aponta para um aquecimento ainda mais drástico até o final deste século, evidenciando o abismo entre o discurso e a prática dos governos. 

Diante do inevitável transpassamento do limite, a ONU propõe a adoção formal do modelo "overshoot, peak and decline" (excesso, pico e declínio). Essa estratégia assume que a temperatura global continuará subindo temporariamente, mas busca garantir que o pico de aquecimento seja o mais baixo possível e que a fase de queda até a marca de 1,5 °C ocorra de forma rápida. A duração desse período crítico definirá a escala dos desastres que a humanidade precisará enfrentar, já que cada fração de grau adicional amplia os riscos sistêmicos de forma exponencial. 

O grande alerta das ciências da Terra para o período de overshoot reside na proximidade dos pontos de inflexão irreversíveis (tipping points). A permanência prolongedada acima da marca de 1,5 °C eleva substancialmente as chances de colapsos ecológicos em cadeia, tais como o derretimento irrecuperável das calotas polares da Groenlândia e da Antártida Ocidental, a savanização da Floresta Amazônica e a desorganização de correntes oceânicas vitais como a AMOC. Tais eventos, uma vez disparados, continuarão a alimentar a crise climática independentemente da redução de emissões industriais no futuro. 

Para operacionalizar o retorno a patamares seguros, a ONU estabelece três pilares simultâneos e urgentes. O primeiro exige a descarbonização imediata e profunda da matriz energética mundial, do transporte, da indústria e da agropecuária ainda nesta década. O segundo pilar é a mitigação focada em poluentes climáticos de vida curta, em especial o metano ($CH_4$), cuja redução imediata atua como um freio térmico de emergência para achatar a curva da temperatura global durante o pico. 

O terceiro pilar apoia-se no alcance de emissões líquidas negativas por meio de tecnologias e processos de Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) em larga escala. Isso inclui tanto soluções baseadas na natureza (como o reflorestamento e a recuperação de solos) quanto tecnologias avançadas de captura direta de ar (DACCS) e bioenergia com armazenamento de carbono (BECCS). O relatório faz uma advertência explícita: essas ferramentas servem estritamente para retirar o carbono acumulado e abater emissões residuais inevitáveis, jamais para legitimar o adiamento do encerramento do uso de combustíveis fósseis. 

Ao mesmo tempo, o relatório apresenta a aposta cega e desregulada na geoengenharia, com destaque para a Modificação da Radiação Solar (SRM). Métodos que tentam resfriar a Terra artificialmente via injeção de aerossóis na atmosfera contém incertezas ecológicas profundas, risco de alterações graves nos regimes globais de chuvas e graves implicações geopolíticas, sem tratar a causa primária do aquecimento nem resolver a acidificação dos oceanos. A tecnologia, portanto, não deve ser encarada como uma pílula mágica para evitar as mudanças estruturais necessárias da sociedade. 

Em última análise, a transição do combate para o gerenciamento do overshoot não deve ser interpretada como resignação diante da crise. Pelo contrário, trata-se de um imperativo de sobrevivência e justiça climática. O êxito dessa nova fase dependerá do fortalecimento multilateral do financiamento de adaptação e reparação de Perdas e Danos para os países do Sul Global - os que menos contribuíram para o acúmulo histórico de gases na atmosfera, mas que já enfrentam as piores consequências dessa ultrapassagem.