Arquivo Nacional negocia acordo com a Caixa Econômica para digitalizar cadernetas de poupança de pessoas escravizadas no século 19
(Redação Serra Verde / Fontes: G1; Exame; O Sul)
O Arquivo Nacional e a Caixa Econômica Federal estão negociando um Acordo de Cooperação Técnica para digitalizar 158 cadernetas de poupança pertencentes a pessoas escravizadas no século 19. A articulação institucional, que vem avançando em etapas sucessivas, tem como objetivo principal garantir a preservação digital desse patrimônio e ampliar o acesso público a documentos considerados cruciais para a compreensão da história nacional.
Os registros documentais foram localizados originalmente durante um levantamento interno realizado pela Caixa a pedido do Ministério Público Federal (MPF). A busca ocorreu no âmbito de um inquérito civil instaurado pelo órgão após o recebimento de uma representação formal apresentada por uma organização do movimento negro, que questionava formalmente o destino final dos valores depositados.
Muito além de meros registros contábeis e financeiros de época, as cadernetas localizadas salvaguardam dados biográficos detalhados de uma população invisibilizada. O acervo traz à tona nomes próprios, profissões, endereços residenciais e movimentações bancárias detalhadas de homens e mulheres escravizados que conseguiram, de forma autônoma, acumular recursos financeiros antes da abolição.
Segundo explicou a diretora-geral do Arquivo Nacional, Monica Lima, as tratativas atuais entre as duas autarquias públicas estão progredindo de maneira estruturada. Após a realização de uma primeira visita técnica presencial e de reuniões virtuais subsequentes, a equipe do arquivo enviou uma minuta de modelo de cooperação para a análise jurídica e institucional da Caixa.
A assinatura definitiva do acordo técnico depende agora de uma próxima etapa, que consistirá em uma nova inspeção presencial detalhada diretamente no acervo físico. Esse procedimento será fundamental para que os especialistas avaliem minuciosamente o real estado de conservação dos livros contábeis centenários e tracem a melhor estratégia de manuseio e captura digital.
As contas revelam uma dinâmica socioeconômica muito específica das áreas urbanas do período imperial, onde operavam os chamados "escravos de ganho". Essas pessoas eram autorizadas pelos seus proprietários a exercer atividades remuneradas nas ruas, repassando a eles uma fatia dos rendimentos e retendo uma parcela menor, o pecúlio, utilizado frequentemente na esperança de comprar a alforria.
Entre as trajetórias recuperadas nos livros oficiais está a de Lydia, uma lavadeira de 27 anos identificada formalmente nos registros como "escrava de Maria Carlota Fortuna". Os dados geográficos indicam que ela provavelmente habitou a antiga Rua da Saúde, atual Rua Sacadura Cabral, localizada na histórica região da Pequena África, na zona central da cidade do Rio de Janeiro.
De acordo com as investigações lideradas pelo procurador da República Júlio Araújo e as pesquisas da historiadora Keila Grinberg, a caderneta de Lydia mostra que seus depósitos bancários permaneceram paralisados e sem movimentação até o ano de 1931. Em nota oficial, a Caixa reconheceu o valor histórico do acervo e confirmou que as tratativas visam dar ampla publicidade e transparência ao patrimônio documental.








